22 de ago de 2011

A criança está de fato aprendendo?

A filha de Alessandra Guerra, procuradora federal em Brasília, tem sete anos e, desde os nove meses, estuda em escola bilíngue. Até os dois anos, o contato com o segundo idioma era semanal, mas a partir dessa idade a criança passou a vivenciar a chamada imersão, ou seja, todos os dias. Por cerca de quatro horas, ela só ouve as professoras falando em inglês. Além disso, toda a comunicação – como pedir para ir ao banheiro – e as atividades realizadas durante o período na escola são realizadas na língua inglesa.

“Minha filha sempre adorou o inglês. Quando tinha três anos, já sabia todas as cores, os números e cantava na segunda língua. Aos cinco anos, ela dizia frases como “May I go to the bathroom?” ou “May I drink some watter?”. Eu falo bem o idioma, mas o meu marido não. O engraçado é que nossa filha passou a corrigir a pronúncia do pai”, conta Alessandra.

Segundo ela, a menina costuma entender o que a mãe diz em inglês sem muito esforço. Porém, recentemente, Alessandra ficou com uma dúvida: será que a filha estava realmente aprendendo? O questionamento surgiu durante as leituras de livros infantis.

Ao ler os livros de literatura indicados pela escola, Alessandra percebia que a filha não entendia tudo, caso ela lesse apenas em inglês. A criança perdia o interesse e não queria ouvir até o final. “Foi aí que comecei a ler interpretando, fazendo gestos, sons, e também misturava inglês com português, mudava a história citando cores, formas e objetos que eu tinha certeza que ela conhecia. Mas continuo achando estranho o fato de eu não prender a atenção somente lendo em inglês. Será que ela está aprendendo mesmo?”, questiona Alessandra.

Albina Escobar, professora de inglês há 20 anos, autora de livros didáticos e consultora em capacitação de professores, afirma que as variáveis para a resposta a essa pergunta são tantas que é difícil analisar sem conhecer profundamente o caso. “É preciso uma avaliação cuidadosa porque depende de vários fatores, entre eles conhecer a rotina da escola. Inclusive, é muito comum os pais acharem que a escola é bilíngue enquanto ela não é de fato. E tem outro ponto: a escolha dos livros pode estar errada”, ressalta.

Albina também chama a atenção para outro detalhe: é comum os pais lerem para a criança na hora em que ela vai dormir. Mas se o filho não quiser deitar àquela hora, pode acabar associando a leitura como algo ruim. “A história lida antes de dormir é recebida com má vontade porque, no fundo, o que a criança não quer é ter que deitar e dormir”, afirma.

A professora recomenda que os pais verifiquem questões desde se a escola ensina todo o conteúdo programático em inglês até o material usado. “Não posso dar um livro de Machado de Assis para uma criança ler porque não estará no mesmo nível cognitivo e lingüístico dela”, exemplifica.

Quanto à forma de descobrir se a criança está incorporando a segunda língua, a educadora e consultora orienta que os pais prestem atenção a alguns comportamentos. Quando a criança viaja para o exterior, por exemplo, e precisa se comunicar com um estrangeiro, pode até sentir vergonha, mas por necessidade ela vai ter que se esforçar. “Sei de um menino de oito anos, aprendiz de inglês, que foi à Disney e, apesar do pai dizer que não queria acompanhá-lo em determinado brinquedo, a criança pediu o dinheiro e foi sozinha comprar o ingresso”, conta.

Há também casos em que a criança se vê na presença de um amigo estrangeiro da família e, longe dos pais, acaba se soltando ao conversar com ele na língua que está aprendendo na escola. “São sinais que a criança vai emitindo que está aprendendo e o importante é não cobrar resultados nem apressar a criança, porque isso pode fazer com que ela crie aversão à nova língua”, alerta.

Seu filho já lhe surpreendeu com algo em seu segundo idioma?

2 comentários:

  1. Tema interessantíssimo ! Minha experiência com meus alunos e meu filho bilíngue comprovam o que comentou Albina Escobar: são inúmeros os fatores que favorecem ou não a produção e a compreensão da criança, e, sem dúvida, oportunidade, adequação, situação, momento certo e necessidade do uso do idioma são imprescindíveis !! Lilian Rodrigues, Consultora em aquisição da segunda língua
    lilian_rodrigues_santos@yahoo.com.br

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  2. Olá, Lilian. Que bom que sua experiência com seus alunos e filhos tem sido positiva. Trabalhar sempre a favor das crianças ajuda muito na compreensão do segundo idioma ainda na infância. Obrigado pela participação.

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