29 de set de 2011

Filho bilíngue não é tradutor

A fonoaudióloga Camila Celeste Pimenta tem dois filhos matriculados em escola bilíngue e não fala inglês. Às vezes, as crianças chegam empolgadas da escola contando o que aprenderam em outro idioma e ela não consegue entender. Nessas horas, é inevitável pedir a eles que traduzam o que estão dizendo.

Embora seja natural pedir ajuda a quem conhece o idioma em casos de necessidade, a psicóloga e psicanalista Araceli Albino, presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo, explica que os pais devem tomar alguns cuidados para não transformar os filhos bilíngues em tradutores no dia a dia. “Os pais precisam se questionar por que querem um filho poliglota. Se é para o desenvolvimento da criança ou para suprir uma falta do que o pai ou a mãe não tiveram”, diz.

No caso de Camila e dos filhos Gabriel (3 anos) e Gustavo (6 anos), a troca acontece de forma natural e sem nenhuma pressão para que os filhos demonstrem seu conhecimento. “Às vezes, estamos escutando uma música ou eu tenho dúvida com alguma palavra e eles me respondem sem nenhum problema. Mas eu tomo cuidado para não ser chata”, diz.

E a vontade da criança?

Araceli conta que, segundo a psicanálise, a formação da personalidade da criança ocorre até os oito anos de idade e qualquer violência moral ou ética antes dessa idade é muito significativa. Ou seja, ficar perguntando a todo o momento o significado das coisas, sem respeitar a vontade do pequeno em se expressar, pode ser prejudicial.

“Se a criança se sentir exposta ou envergonhada diante de alguma situação, ela entra num processo de recalcamento para eliminar da consciência e evitar sofrimento. Mas, as emoções não se reprimem, elas voltarão de forma diferente em outra fase da vida. Ela pode responder para agradar, mas não vai externar suas emoções na hora”, diz.

A psicanalista explica que a criança também pode ter uma reação a essa situação de constrangimento e criar aversão pelo segundo idioma, ter dificuldade de aprendizado ou não querer falar a língua por sentir-se envergonhada. Depois dos oito anos, a criança já adquiriu a linguagem e pode se posicionar e defender sua vontade.

Pedir que os filhos traduzam coisas o tempo todo também pode gerar um complexo de superioridade ou de inferioridade, caso a criança não saiba responder. “Ambos em excesso são prejudiciais, porque a realidade não está em nenhum dos dois lados”, diz Araceli.

Respeito antes de tudo

Camila diz que os dois filhos gostam de estudar na escola bilíngue e do segundo idioma. No entanto, Gustavo, o mais velho, é mais tímido e não gosta de fazer nada forçado, enquanto Gabriel é super falante. “Respeito o jeito de cada um”, diz.

Na opinião da especialista, esse é o melhor conselho. “A relação entre pais e filhos tem que ser respeitosa e ter limites, pois eles amparam a criança. É necessário equilíbrio entre a aprendizagem e o emocional, para que a criança sinta satisfação no conhecimento adquirido e não obrigatoriedade”, finaliza.

26 de set de 2011

O papel do teacher na educação infantil bilíngue

Outro dia uma pesquisadora em bilinguismo e mãe de filhos bilíngues afirmou aqui no blog que crianças que falam duas línguas são espertas duas vezes. Isso quer dizer que os professores que ensinam esses alunos precisam ser espertos em dobro também?

Para matar a curiosidade, ouvimos duas profissionais do meio. Viviane Klen Alves tem trabalho premiado em planejamento na educação bilíngue e diversas pesquisas na área. Além disso, é membro do Bilingualism Special Interest Group e pesquisadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL) da PUC-SP. Já Martha Gattarosa tem mestrado em Linguística pela Universidade de Westminster, na Inglaterra, é professora de inglês e desenvolve materiais didáticos em língua inglesa.

Carta na manga

Para Viviane, é primordial que o professor de escola bilíngue esteja atento aos fatos do cotidiano que despertam o interesse das crianças. Ela acredita que o professor precisa ter diversas habilidades para contextualizar o conteúdo planejado para a sala de aula. “E, mesmo assim, nem tudo dá certo. Às vezes o assunto pode não prender a atenção das crianças e, nesse caso, é preciso repensar, mantendo o foco no objetivo do planejamento, mas alterando-o conforme as necessidades. Por exemplo, se o objetivo é apresentar às crianças os animais marinhos, pode-se ler um livro, falar sobre o tema, mas também levá-los para assistir a um filme ou visitar um aquário”, explica.

Ela destaca ainda que é “desejável que o professor tenha sempre uma ‘carta na manga’, fruto da bagagem que carrega”. O uso desse repertório seria o diferencial para propiciar aulas mais interessantes, inclusive quando algo dá errado. “Na cooking class (aula de culinária), por exemplo, se o planejado é fazer um bolo, mas as crianças esqueceram o leite condensado, há algo que o substitui? Se o professor é versátil, pode providenciar leite e açúcar”, diz.

Motivação

Cooking class, aliás, é citado por Martha como uma das atividades que motivam os alunos a aprender. “Aulas temáticas como a de culinária, peças teatrais e projetos envolvem os estudantes e dão oportunidade para que usem seu conhecimento e dividam tarefas. Ao mesmo tempo, esse tipo de atividade permite que a turma vivencie a segunda língua de maneira compreensível e significativa”, analisa.

Motivação é o que move a aprendizagem de qualquer idioma, reforça Martha. Por isso, a sala de aula deve ser um lugar vivo e com atrativo visual (cartazes, desenhos, projetos, cantinho da leitura, etc.) muito bem explorado pelo professor. Ela acredita que o educador experiente e sensível sabe que em muitas situações os alunos entendem mais o lúdico do que a regra em si. “A compreensão vem por meio dos sensos auditivo e visual, por isso, a variedade de atividades escritas, orais, a interação por meio de jogos, teatro ou fantoche devem decorrer de uma maneira divertida. Depende do professor observar e avaliar os alunos e suas habilidades e, a partir daí, explorar as várias possibilidades de tarefas”.

Da mesma forma que o professor pode utilizar diferentes recursos para ensinar, ele pode deixar as crianças também fazerem isso, completa Viviane. Dessa forma eles produzem significados compartilhados daquilo que estão aprendendo. “Outro dia, em uma sala onde só se fala em inglês, a professora aguardou que um dos alunos fizesse a explicação, em português, para um amigo que não havia compreendido, ou seja, ela soube entender a situação em vez de impor a língua que deveria ser falada, o que contribuiu para que eles aprendessem o conceito”, exemplifica.

22 de set de 2011

Inovação educativa

O texto abaixo, sobre sistemas educacionais, foi publicado no jornal Brasil Econômico (Online) no dia 21 de setembro. Confira a matéria na íntegra.

Na semana passada, assim como os resultados do Enem, foi divulgado o estudo "Education at a Glance 2011" da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que apresenta uma análise evolutiva dos sistemas educativos de 42 países nas últimas décadas.

A média dos países da OCDE avançou, nos últimos 30 anos, 15 p.p. na proporção de pessoas com formação superior. O Brasil, por sua vez, progrediu 3 p.p., um dos valores mais baixos da amostra. O melhor desempenho nesse quesito foi o da Coreia do Sul, que neste mesmo período aumentou em 50 p.p. a proporção de pessoas com formação superior.

Mas o que esses resultados não evidenciam é que a maioria dos modelos educativos em vigor, mesmo nos chamados países desenvolvidos, não tem acompanhado a rápida transformação do mundo moderno.

Antes pelo contrário, até hoje a maioria dos sistemas educacionais tem-se concentrado na imposição de uniformidade curricular e de padrões desajustados das necessidades da nova economia. Aliás, os mais de 40% de jovens desempregados na Espanha e uma baixa taxa de empreendedorismo não serão sinais desse desajuste?

O especialista britânico em educação, Sir Ken Robinson, afirma que a escola, tal como a conhecemos hoje, é responsável por "matar a criatividade das crianças", impondo uma padronização a que ele chama de modelo educativo tipo fast food, que empobrece os espíritos e desaproveita os talentos individuais.

O problema é que no mundo global a criatividade e a inovação são competências críticas de sucesso.

Muitas são as evidências de que a educação atual não incorpora o conhecimento que a ciência já detém sobre o desenvolvimento do intelecto. Dois exemplos concretos são o ensino da música e o multilingualismo.

Descobertas publicadas na revista Neurological Research mostraram que crianças que receberam aulas de piano alcançaram melhores resultados em testes que mediam a capacidade de raciocínio abstrato, do que crianças que não tiveram tais aulas.

A música por si só aumenta as funções cerebrais exigidas em matemática e ciências. E não pensemos que só um país rico pode ensinar música às suas crianças. A Venezuela, por exemplo, através do projeto "El sistema", já educou musicalmente quase meio milhão de crianças nos últimos 30 anos, entre elas gênios da música como o jovem Gustavo Dudamel.

Sobre o multilingualismo, estudos recentes referenciados na revista Scientific American, parecem demonstrar que as crianças que crescem aprendendo mais do que um idioma com fluência evidenciam maiores capacidades cognitivas do que as crianças que crescem com monolingualismo. E, no entanto, são poucos os países que promovem o ensino bilíngue.

Mas já existem casos de sucesso de inovação educativa que estão quebrando os paradigmas do século passado. Exemplos de Cingapura, Hong Kong e Coreia do Sul constituem referências na adoção de sistemas mais inovadores.

Sistemas em que a carreira dos professores é muito valorizada, em que a performance é monitorada escola-a-escola, em que as escolas com melhor desempenho conquistam autonomia para adaptar os seus programas ao perfil e necessidades dos alunos, modelos em que as melhores práticas e a inovação são partilhadas entre escolas.

Os resultados agora conhecidos do estudo da OCDE, aparentemente desfavoráveis para o Brasil, afiguram-se como uma porta aberta para uma revolução educativa nas próximas décadas, que beneficia do conhecimento que já existe de alguns casos de sucesso e da capacidade criativa do povo brasileiro.

19 de set de 2011

Educação Multicultural: crianças abertas à diversidade e desafiadoras de preconceito

Depois de cursar doutorado na Escócia, Ana Canen voltou ao Brasil com os filhos. Um dia, na escola brasileira, um deles levou um tombo e os amigos riram. “Meu filho me disse que se lembrou de quando caiu na escola em que estudava no exterior. Falou que lá, ao contrário do Brasil, as outras crianças se uniram espontaneamente para levá-lo à enfermaria. Por meio de um simples tombo meu filho pôde enxergar duas realidades diferentes”, comenta Ana, que é professora da área de Educação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em educação multicultural.

O mesmo filho de Ana se deparou com outra situação inusitada ao mudar de país: “A professora brasileira contou que meu filho ficou meio espantado quando ela disse ‘como você é lindo’ e o beijou carinhosamente. Na Escócia, ninguém beija tanto quanto no Brasil e essa afetividade do nosso povo foi uma surpresa pra ele”, relembra.

Ana só vê vantagens nessas experiências. Acredita que permitem ao filho ampliar a visão de mundo e perceber que todos têm algo a aprender uns com os outros. E o principal: facilitam o entendimento de que não existe uma cultura superior ou inferior à outra.

Multiculturalismo na escola

A diversidade humana deve ser assunto das instituições de ensino em geral e mais ainda das escolas bilíngues, segundo Angela Oliveira, pesquisadora na área de Multiculturalismo, tradutora e professora de inglês e português para estrangeiros. “É função da escola democrática preparar o aluno para a sobrevivência em sociedades contemporâneas, formando futuras gerações com os valores de respeito, tolerância e apreciação à pluralidade cultural. Esses jovens devem ser preparados para desafiar discursos preconceituosos que geram tensões e conflitos, desde o bullying até os que abalam a paz mundial”, afirma.

Ana Canen acredita que colocar o filho em uma escola bilíngue é dar a ele a chance de se inserir nesse mundo multicultural. “Quando se fala em bilinguismo as pessoas logo pensam em idioma, mas trata-se de multicultura. A língua é uma das características mais marcantes das identidades culturais. O modo de falar ou de se expressar representa a identidade cultural de uma pessoa. Então, ao conhecer uma segunda língua, você aprende uma parte importante da identidade de uma pessoa ou um grupo. Quando a segunda língua é incorporada, o mesmo acontece com a cultura”, diz.

Para a professora da UFRJ, os pais precisam estar cientes de que o filho na escola bilíngue não irá aprender apenas um segundo idioma e, sim, será inserir em uma nova forma de ver o mundo. “O jovem é preparado para lidar com as diferenças. Ele vai entender que não é o dono razão e que existem outras maneiras de enxergar a realidade”, ressalta.

Prática multicultural

Na opinião de Ana, pais e professores devem sempre valorizar a cultura de origem do aluno, sem permitir comparações depreciativas entre duas línguas e culturas. Angela acrescenta que é importante mostrar à criança que o contexto cultural de um país está ligado a fatores históricos, geográficos, climáticos, religiosos etc. Uma atividade relacionada à prática multicultural poderia ser a análise, juntamente com a criança, de duas gravuras ou fotos de pessoas de diferentes países: um tropical, como o Brasil, e outro do hemisfério norte, por exemplo.

A ideia é fazer a criança entender que quem está de botas não está mais bem vestido do que aquele que está usando sandálias. “O mais bem vestido é aquele que está mais apropriado para seu clima. As temperaturas são diferentes, as roupas são diferentes e isso faz com que as pessoas também tenham um comportamento diferente - mais contidos nas roupas mais pesadas e mais extrovertido nas roupas mais descontraídas. Assim, os esquimós se vestem ‘diferente’, assim como os muçulmanos por motivos religiosos”, orienta.

E você, ajuda seu filho a compreender que as diferenças devem ser respeitadas?

15 de set de 2011

Segundo idioma: por que adiar e sofrer se é melhor antecipar e curtir?

Aprender um segundo idioma é possível em qualquer idade, mas os mais crescidos devem concordar que, à medida que se fica mais velho, essa aptidão tende a diminuir. Não é preciso ser especialista para perceber que, de uma forma geral, quanto mais tempo uma pessoa estiver ligada somente à sua língua materna, mais dificuldade terá quando se deparar com uma língua diferente.

Flávia Camargo, pesquisadora da área de Linguística Aplicada e professora de língua inglesa há sete anos, concorda que o desafio é maior ao aprender outra língua quando se é adulto. Ela observa que existe certa dependência desses alunos em fazer a tradução, ou seja, primeiro pensar na língua de origem para depois transferir para a segunda língua. “Não há como fingir que o aluno está começando do zero e que ele já não possui uma língua na qual formula seus pensamentos. A tradução tem sua utilidade principalmente no início da aprendizagem, só não pode virar uma 'muleta' necessária para formular qualquer frase”, ressalta.

Já as crianças não sofrem do “mal” da tradução. Segunda Flávia, com elas não existe o fingir que se está começando do zero porque é realmente um início. “Como a criança não tem uma base linguística completamente estruturada na língua materna, não vai depender dessa língua para formular seus pensamentos em outra”, explica a professora.

Pronúncia

No caso da língua inglesa, a pronúncia é outro item que faz sofrer muitos adultos, segundo Flávia. “Inglês não é uma língua silábica como a nossa. No português, b + a é sempre ‘ba’, mas em inglês, não. Um exemplo é ‘drink’ e ‘drive’ que têm sílabas formadas pelas mesmas letras (dri) e com pronúncia diferente: 'drink' e 'draiv'”, diz.

Alunos adultos escorregam ainda na pronúncia dos verbos no passado. Palavras como 'kissed' tendem a ser pronunciadas como se fossem lidas em português, e aí vem a correção da professora: “Palavras terminadas com sons ‘desvozeados’, ou seja, terminadas em p, k, s, ch, sh, x, por exemplo, têm a pronúncia finalizada em ‘t’. Por isso, ‘kissed’ seria 'kist' e não 'kissed' como a maioria dos alunos costuma falar”, ensina.

Mais uma vez, Flávia lembra que isso não acontece com as crianças: “elas são como esponjas, absorvem tudo e não ficam comparando línguas”.

Imersão na infância

Para evitar situações como as citadas acima, muitos pesquisadores recomendam que bebês e crianças sejam expostos o quanto antes à língua que se pretende que eles aprendam. Porém, não adianta se essa exposição for esporádica e somente com “pinceladas” do novo idioma.

Maria Fausta Pereira de Castro, professora titular na área de aquisição de linguagem no Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/UNICAMP), acredita que aprender algumas palavras ou músicas até promove certo contato com a língua, mas não faz, necessariamente, alguém se tornar um falante daquela língua estrangeira. “É possível conhecer músicas em diversas línguas estrangeiras e não ser falante de nenhuma delas”, exemplifica.

Ana Paula Mariutti, presidente da Organização das Escolas Bilíngues de São Paulo (OEBI), explica que a exposição ao segundo idioma deve ser diária e natural, assim como acontece com a língua materna na casa da criança. “Quem já fez cursinho de inglês sabe que na sala de aula são comuns as simulações com situações do dia a dia. O professor pode fingir que é o garçom e os alunos são os clientes, por exemplo, mas será que o estudante, quando estiver num restaurante de verdade, vai saber responder se algo fugir ao script? É diferente na escola bilíngue onde o aluno vive, desde muito cedo, a imersão no segundo idioma, ou seja, o que ele vivencia na língua estrangeira já é a própria vida real”, aponta.

E você, aprendeu a segunda língua quando era criança e se tornou fluente com facilidade ou ainda se vê às voltas com professores de idiomas?

12 de set de 2011

Emoções na bagagem dos alunos imigrantes

Como toda pessoa que muda de país, as crianças sentem falta dos amigos, dos familiares, dos locais conhecidos, da rotina. A mudança é uma ruptura e a forma de viver essa perda varia muito. Vai depender, por exemplo, de como os pais da criança estão se sentindo em relação à mudança de país. Isso interfere até no processo de aquisição do segundo idioma.

“A família da criança é seu principal universo e, à medida que cresce, esse universo vai se ampliando. O aprendizado da nova língua também passa pela relação que os pais têm com o novo país. Se a mudança não foi ou não está sendo algo positivo para o pai ou a mãe, o aprendizado da nova língua pode ser vivido como uma traição a esse pai ou essa mãe”, explica Sylvia Duarte Dantas, psicóloga e coordenadora no Núcleo de Estudos e Orientação Intercultural na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Mas o contrário também acontece. “Se ambos os pais têm uma mínima tranquilidade para encarar a mudança – seja porque a saída do país de origem significou algo positivo ou porque foram bem acolhidos no país estrangeiro –, haverá espaço para integrar o novo e estar aberto aos desafios que todo deslocamento apresenta”, completa a psicóloga.

Acolhimento

E como se deve lidar com a criança que acabou de trocar de país? A especialista explica que o acolhimento por parte da escola é essencial no sentido de entender que esse é um momento em que a criança fica mais sensível, afinal, tudo que antes era rotina agora precisa ser reaprendido.

“Em geral as crianças são receptivas a um ambiente que lhes é também
receptivo. É preciso entender que a mudança implica em um processo a ser vivido e cada criança tem um ritmo próprio. Algumas podem ficar mais retraídas, outras mais ativas. E muitas delas não conseguem ainda expressar verbalmente o que estão sentindo”, conta Sylvia.

Leiko Morales, doutora em Linguística com trabalhos sobre bilinguismo e professora de japonês do departamento de Línguas Orientais da USP, concorda que a expressão das emoções sofre certo bloqueio em algumas crianças. “O que a gente observa é que elas ficam quietas e não conseguem se comunicar, mostrar o que sentem. Ou seja, acabam enfrentando um problema não só de identidade, mas também emocional”, alerta.

Para Leiko, a língua de origem deve ser mantida no dia a dia com a família. “Quando o pai ou a mãe fala a primeira língua da criança é importante que continue dando o suporte linguístico em casa, já que a segunda língua o filho vai aprender na escola”.

Saudade

Sylvia alerta para o risco tanto da escola quanto dos pais de “patologizar” algum comportamento da criança, ou seja, tratá-lo como distúrbio, transtorno ou doença, quando na verdade isso só demonstra que a criança está lidando com uma situação complexa e precisa de tempo para absorver as mudanças.

“Certa vez, durante um trabalho com famílias imigrantes, pude observar que uma criança estava sendo medicada por déficit de atenção de forma equivocada. A família tinha acabado de voltar de férias do Brasil onde foi passar o verão. A criança tinha se encontrado com tios, primos, todo mundo reunido. Ao voltarem para os Estados Unidos, em pleno inverno, o comportamento da criança foi visto como hiperativo, mas era uma simples expressão de saudades dos parentes que ficaram pra trás e daquele ambiente familiar caloroso. Faltou essa compreensão”, ressalta a Sylvia, lembrando que situações como essa são comuns.

8 de set de 2011

Diferenças entre escola bilíngue e escola de idiomas

As expectativas dos pais em relação à educação dos filhos mudam muito de família para família. A solução adotada por uma pode não ser a melhor para outra, por isso, é necessário pesquisar. Aqui você vai conhecer as diferenças entre matricular a criança em uma escola bilíngue e em uma escola convencional - complementando com aulas de inglês.

Nós ouvimos dois pesquisadores e profissionais do meio: Marcello Marcelino, doutor em Linguística e professor do curso de Letras da PUC/SP, e Ana Paula B. Risério Cortez, professora de inglês e português como língua estrangeira e mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC/SP.

O papel da língua
Ana Paula explica que, na educação bilíngue, a língua é tanto o objetivo a ser alcançado, quanto a ferramenta para se alcançar esse objetivo, o que na teoria de dois pesquisadores - Newman & Holzman, 1997 – é denominado de “ferramenta e resultado”. Isso significa que o aluno vai aprender a língua estrangeira ao mesmo tempo em que a usa para conseguir aprendizado. Já a escola de idiomas tem como meta somente a língua e não faz dela uma ferramenta para esse fim, o que é chamado de “ferramenta para resultado”.

“A diferença é que na escola bilíngue o idioma é a ferramenta-chave para, pelo menos, a metade do currículo, enquanto que na escola de idiomas ela é a matéria-chave e nada mais”, diz.

Na escola de idiomas
Vamos ver o caso da criança que estuda em uma escola regular e vai algumas vezes por semana a um curso de inglês. Segundo Marcelino, aqui o foco principal é o aprendizado do inglês como língua estrangeira, ou seja, o aluno vai aprender um idioma diferente do português. Ele explica que na escola de inglês o tempo que o aluno está exposto à língua varia de 100 minutos a 4 horas semanais. Em geral, há materiais como livros didáticos com número específico de unidades que devem ser ensinadas em um determinado número de aulas.

Nestes casos, os temas abordados referem-se a situações específicas que os alunos enfrentarão ao usar o inglês em uma viagem, na internet ou com amigos estrangeiros. “Ao final de cada unidade de trabalho são elaborados testes cuja finalidade é avaliar a apreensão das estruturas e do vocabulário apresentados nas unidades, para acompanhamento do aprendizado de cada um dos alunos”, explica.

Na escola bilíngue
Na escola de educação bilíngue, esclarece Marcelino, o aluno aprende todos os dias durante 4 horas diárias de convívio. O foco muda bastante: não é a aprendizagem das estruturas e do vocabulário da língua inglesa, mas sim o aprendizado das habilidades e dos conteúdos dos Referenciais Curriculares Nacionais, documento preparado pelo governo para orientar as escolas de educação infantil, como em qualquer outra escola.

“De acordo com os Referenciais, a criança deve aprender sobre o mundo e sobre o respeito ao próximo, e isso ocorre quando ela se socializa com um grupo de alunos, professores e profissionais que atuam na escola. Ela deve também aprender a ser mais autônoma e independente”, ressalta Marcello. Ele lembra também que “no contexto bilíngue, a língua inglesa é vista como uma ferramenta para obtenção e expansão de conhecimento, e no caso da educação infantil, é o primeiro contato que a criança tem com o mundo exterior, fora de sua casa, em uma escola em inglês. É por isso, destaca o especialista, que nesse contexto o inglês passa a ser também a língua em que a criança se desenvolve e cria conceitos.

Currículos
Ana Paula reforça a diferença pedagógica entre as duas escolas. O currículo da escola bilíngue é voltado para o ensino das matérias e não para o ensino apenas da língua. Ao mesmo tempo em que o aluno aprende matemática, aprende também a segunda língua. E tem ainda uma aula específica sobre o idioma alvo. “Essa riqueza não acontece no curso de inglês onde existe o ensino da língua pela língua, a partir de projetos ou temas. Nesse caso, o foco curricular é apenas na língua estrangeira”, aponta.

Além disso, continua Ana Paula, a divisão do tempo didático nas escolas bilíngues se dá, de forma geral, com trabalho pedagógico feito metade do período na língua materna e a outra metade na língua estrangeira. “Já na escola de idiomas o tempo é bem mais curto, entre 1 ou 2 horas cerca de duas vezes por semana”.

Divisão do conteúdo
O corpo docente de uma escola bilíngue precisa, segundo Ana Paula, estar preparado para o trabalho nas duas línguas. Os professores de todas as matérias devem falar a língua estrangeira para desenvolver as atividades pedagógicas ou é necessário contratar professores para o curso de matemática e de math, de ciências e science, e assim por diante.

Ela ressalta que isso não quer dizer que o currículo será fragmentado ou repetido, pelo contrário. O planejamento deve ser colaborativo e compartilhado, de maneira que o aluno aprenda tópicos das matérias nas duas línguas de forma coordenada, mas não repetida. “Nas aulas de ciências dadas em português, os alunos podem trabalhar com doenças relacionadas a sanitarismo, enquanto que nas aulas em inglês, ou science, são discutidos os programas de vacinação. Ambos os cursos tentam fazer uma aproximação para que o aluno perceba a relação entre os tópicos”, exemplifica.

Atenção!
Ana Paula alerta que algumas escolas se intitulam bilíngues e oferecem a chamada intensificação, mas na verdade elas apenas aumentam o número de horas de ensino de língua estrangeira - por exemplo, três horas, quatro vezes por semana - mas o foco continua sendo a língua. “As outras matérias seguem apresentadas na língua materna e isso não é educação bilíngue”, afirma.

Marcelino também dá um último recado aos pais: a escolha de uma ou outra escola vai se pautar no que os pais acreditam ser a melhor composição para a educação de seus filhos. As duas possibilidades são válidas, funcionam de formas diferentes, e devem ser estudadas pela família. “É importante ficar claro que na escola de idiomas o professor não tem uma visão global da criança, é mais uma relação entre o prestador de serviço e o cliente. Já na escola de educação bilíngüe, há mais proximidade com os responsáveis pela criança, o ensino está mais voltado para a formação do aluno”, conclui.