1 de set de 2011

Criança bilíngue é esperta duas vezes

“Mamãe, eu quero juice”. É assim, misturando o português com o inglês, que Rafael, de 3 anos e meio, pede suco para a mãe, Rosana Sallum, de São Paulo. Ela diz que já está acostumada com essas pequenas confusões de expressão da criança, que é brasileira e estuda em escola bilíngue desde um ano de idade.
“O Rafael até corrige o meu inglês, que não é tão bom. Na escola me explicaram que nesta fase é normal o aluno se confundir com as duas línguas. Então não me preocupo mais quando ele fala algo como ‘mamãe, vou colocar meu casaco na bag’, sem dizer mochila, por exemplo”, comenta.
Quem também vive essa experiência no dia a dia com os filhos é Érica Lima, professora de Linguística na PUC/Campinas, mestre em Linguística Aplicada pela Unicamp e doutora em Teoria Literária pela Unesp. Érica morou oito anos nos Estados Unidos, onde teve Clarissa, de 7 anos, e Rodrigo, de 5 anos. No ano passado eles voltaram ao Brasil e as crianças foram matriculadas em uma escola bilíngue.
“Pesquisei e continuo pesquisando muito sobre bilinguismo. Meu interesse começou com o nascimento da Clarissa, em 2003. Estava morando nos Estados Unidos e não queria que ela crescesse sem o português, como várias crianças, filhos de pai ou mãe brasileiros, que conheci lá. Comecei a fazer parte de um grupo de mães, que deu origem à Associação Brasileira de Cultura e Educação (ABRACE), cujo site é http://abracebrasil.org/about/?page_id=2. Neste grupo, tive a oportunidade de conviver com várias crianças que estavam passando por uma aquisição dupla de línguas”, explica Érica.

Code-swiching
Segundo a professora, a alternância linguística ou alternância de código consiste em usar uma palavra ou expressão da outra língua em frases da primeira língua. Érica conta que, no caso dos filhos dela, os exemplos recorrentes têm sido: “Eu vou passar dessa level”, quando estão jogando videogame e vão mudar de nível; “Eu brinquei muito no break”, quando se referem ao recreio na escola; “Mamãe, tem muita menina que love me na escola. Elas querem só kiss me, hug me…”, quando o filho conta sobre a fama entre as garotas. E por aí vai.
Érica diz que, quando os filhos eram mais novos, era comum confundirem estruturas: “Eu sou cinco.” (Eu tenho cinco - I am five); “O que é isso pra?” (Pra quê é isso? - What is this for?); “Eu tenho um cartão crédito” (I have a credit card); “Posso ter um chocolate?” (Can I have a chocolate? - Posso comer um chocolate? ou Me dá um chocolate?); Eu sei essa menina (I know this girl).
Com tantos exemplos, pensa que a mãe se desespera? Negativo. “As interferências de uma língua na outra são normais e, aos poucos, tendem a desaparecer. Isso acontece mais no início da aquisição da linguagem, quando a criança ainda não tem muito vocabulário nas duas línguas. Quando vai adquirindo o domínio dos dois idiomas, a mistura vai sumindo. É um processo natural, com o tempo a criança acaba conseguindo, sozinha, separar os códigos”, afirma.
Ela ressalta que o code-switching não significa incompetência linguística, mas o oposto. Mostra que a criança é esperta o suficiente para buscar na outra língua o que está faltando na língua que ela está usando naquele momento. “É uma maneira de continuar a interação”, completa.

Dicas para os pais
Segundo Érica, como acontece com a aquisição da primeira língua, cabe aos pais corrigir a criança de maneira sutil, repetindo a palavra certa, na língua em que a comunicação está sendo feita.
“Os pais devem expor a criança a mais vocabulários. No caso do meu filho, quando ele falou ‘tem muita menina que love me na escola’, eu respondi: ‘ah, elas te amam?’, e só. Se a criança perceber a correção, ótimo. Se não, o melhor é esperar. Não se deve ficar dizendo ‘está errado, a palavra em português é X’. O principal para a criança é a comunicação, não importa em qual língua”, orienta.
Os pais devem adotar essa conduta, de acordo com Érica, porque a criança bilíngue tem mais flexibilidade cognitiva e logo percebe que está lidando com duas estruturas diferentes.
“Quando isso acontece, ela acaba fazendo a separação tanto em termos de vocabulário como em termos de sintaxe. Quando íamos visitar alguém, assim que chegávamos na casa da pessoa, minha filha, com três anos de idade, perguntava: ‘mamãe, ela fala oi ou hi?’. Criança é esperta. Criança bilíngue é esperta duas vezes!”, arremata.

Um comentário:

  1. Ótimo "post", Erica - Parabéns!
    Gisele Proença - Aluna de Letras
    2º semestre - PUCC

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