8 de set de 2011

Diferenças entre escola bilíngue e escola de idiomas

As expectativas dos pais em relação à educação dos filhos mudam muito de família para família. A solução adotada por uma pode não ser a melhor para outra, por isso, é necessário pesquisar. Aqui você vai conhecer as diferenças entre matricular a criança em uma escola bilíngue e em uma escola convencional - complementando com aulas de inglês.

Nós ouvimos dois pesquisadores e profissionais do meio: Marcello Marcelino, doutor em Linguística e professor do curso de Letras da PUC/SP, e Ana Paula B. Risério Cortez, professora de inglês e português como língua estrangeira e mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC/SP.

O papel da língua
Ana Paula explica que, na educação bilíngue, a língua é tanto o objetivo a ser alcançado, quanto a ferramenta para se alcançar esse objetivo, o que na teoria de dois pesquisadores - Newman & Holzman, 1997 – é denominado de “ferramenta e resultado”. Isso significa que o aluno vai aprender a língua estrangeira ao mesmo tempo em que a usa para conseguir aprendizado. Já a escola de idiomas tem como meta somente a língua e não faz dela uma ferramenta para esse fim, o que é chamado de “ferramenta para resultado”.

“A diferença é que na escola bilíngue o idioma é a ferramenta-chave para, pelo menos, a metade do currículo, enquanto que na escola de idiomas ela é a matéria-chave e nada mais”, diz.

Na escola de idiomas
Vamos ver o caso da criança que estuda em uma escola regular e vai algumas vezes por semana a um curso de inglês. Segundo Marcelino, aqui o foco principal é o aprendizado do inglês como língua estrangeira, ou seja, o aluno vai aprender um idioma diferente do português. Ele explica que na escola de inglês o tempo que o aluno está exposto à língua varia de 100 minutos a 4 horas semanais. Em geral, há materiais como livros didáticos com número específico de unidades que devem ser ensinadas em um determinado número de aulas.

Nestes casos, os temas abordados referem-se a situações específicas que os alunos enfrentarão ao usar o inglês em uma viagem, na internet ou com amigos estrangeiros. “Ao final de cada unidade de trabalho são elaborados testes cuja finalidade é avaliar a apreensão das estruturas e do vocabulário apresentados nas unidades, para acompanhamento do aprendizado de cada um dos alunos”, explica.

Na escola bilíngue
Na escola de educação bilíngue, esclarece Marcelino, o aluno aprende todos os dias durante 4 horas diárias de convívio. O foco muda bastante: não é a aprendizagem das estruturas e do vocabulário da língua inglesa, mas sim o aprendizado das habilidades e dos conteúdos dos Referenciais Curriculares Nacionais, documento preparado pelo governo para orientar as escolas de educação infantil, como em qualquer outra escola.

“De acordo com os Referenciais, a criança deve aprender sobre o mundo e sobre o respeito ao próximo, e isso ocorre quando ela se socializa com um grupo de alunos, professores e profissionais que atuam na escola. Ela deve também aprender a ser mais autônoma e independente”, ressalta Marcello. Ele lembra também que “no contexto bilíngue, a língua inglesa é vista como uma ferramenta para obtenção e expansão de conhecimento, e no caso da educação infantil, é o primeiro contato que a criança tem com o mundo exterior, fora de sua casa, em uma escola em inglês. É por isso, destaca o especialista, que nesse contexto o inglês passa a ser também a língua em que a criança se desenvolve e cria conceitos.

Currículos
Ana Paula reforça a diferença pedagógica entre as duas escolas. O currículo da escola bilíngue é voltado para o ensino das matérias e não para o ensino apenas da língua. Ao mesmo tempo em que o aluno aprende matemática, aprende também a segunda língua. E tem ainda uma aula específica sobre o idioma alvo. “Essa riqueza não acontece no curso de inglês onde existe o ensino da língua pela língua, a partir de projetos ou temas. Nesse caso, o foco curricular é apenas na língua estrangeira”, aponta.

Além disso, continua Ana Paula, a divisão do tempo didático nas escolas bilíngues se dá, de forma geral, com trabalho pedagógico feito metade do período na língua materna e a outra metade na língua estrangeira. “Já na escola de idiomas o tempo é bem mais curto, entre 1 ou 2 horas cerca de duas vezes por semana”.

Divisão do conteúdo
O corpo docente de uma escola bilíngue precisa, segundo Ana Paula, estar preparado para o trabalho nas duas línguas. Os professores de todas as matérias devem falar a língua estrangeira para desenvolver as atividades pedagógicas ou é necessário contratar professores para o curso de matemática e de math, de ciências e science, e assim por diante.

Ela ressalta que isso não quer dizer que o currículo será fragmentado ou repetido, pelo contrário. O planejamento deve ser colaborativo e compartilhado, de maneira que o aluno aprenda tópicos das matérias nas duas línguas de forma coordenada, mas não repetida. “Nas aulas de ciências dadas em português, os alunos podem trabalhar com doenças relacionadas a sanitarismo, enquanto que nas aulas em inglês, ou science, são discutidos os programas de vacinação. Ambos os cursos tentam fazer uma aproximação para que o aluno perceba a relação entre os tópicos”, exemplifica.

Atenção!
Ana Paula alerta que algumas escolas se intitulam bilíngues e oferecem a chamada intensificação, mas na verdade elas apenas aumentam o número de horas de ensino de língua estrangeira - por exemplo, três horas, quatro vezes por semana - mas o foco continua sendo a língua. “As outras matérias seguem apresentadas na língua materna e isso não é educação bilíngue”, afirma.

Marcelino também dá um último recado aos pais: a escolha de uma ou outra escola vai se pautar no que os pais acreditam ser a melhor composição para a educação de seus filhos. As duas possibilidades são válidas, funcionam de formas diferentes, e devem ser estudadas pela família. “É importante ficar claro que na escola de idiomas o professor não tem uma visão global da criança, é mais uma relação entre o prestador de serviço e o cliente. Já na escola de educação bilíngüe, há mais proximidade com os responsáveis pela criança, o ensino está mais voltado para a formação do aluno”, conclui.

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