12 de set de 2011

Emoções na bagagem dos alunos imigrantes

Como toda pessoa que muda de país, as crianças sentem falta dos amigos, dos familiares, dos locais conhecidos, da rotina. A mudança é uma ruptura e a forma de viver essa perda varia muito. Vai depender, por exemplo, de como os pais da criança estão se sentindo em relação à mudança de país. Isso interfere até no processo de aquisição do segundo idioma.

“A família da criança é seu principal universo e, à medida que cresce, esse universo vai se ampliando. O aprendizado da nova língua também passa pela relação que os pais têm com o novo país. Se a mudança não foi ou não está sendo algo positivo para o pai ou a mãe, o aprendizado da nova língua pode ser vivido como uma traição a esse pai ou essa mãe”, explica Sylvia Duarte Dantas, psicóloga e coordenadora no Núcleo de Estudos e Orientação Intercultural na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Mas o contrário também acontece. “Se ambos os pais têm uma mínima tranquilidade para encarar a mudança – seja porque a saída do país de origem significou algo positivo ou porque foram bem acolhidos no país estrangeiro –, haverá espaço para integrar o novo e estar aberto aos desafios que todo deslocamento apresenta”, completa a psicóloga.

Acolhimento

E como se deve lidar com a criança que acabou de trocar de país? A especialista explica que o acolhimento por parte da escola é essencial no sentido de entender que esse é um momento em que a criança fica mais sensível, afinal, tudo que antes era rotina agora precisa ser reaprendido.

“Em geral as crianças são receptivas a um ambiente que lhes é também
receptivo. É preciso entender que a mudança implica em um processo a ser vivido e cada criança tem um ritmo próprio. Algumas podem ficar mais retraídas, outras mais ativas. E muitas delas não conseguem ainda expressar verbalmente o que estão sentindo”, conta Sylvia.

Leiko Morales, doutora em Linguística com trabalhos sobre bilinguismo e professora de japonês do departamento de Línguas Orientais da USP, concorda que a expressão das emoções sofre certo bloqueio em algumas crianças. “O que a gente observa é que elas ficam quietas e não conseguem se comunicar, mostrar o que sentem. Ou seja, acabam enfrentando um problema não só de identidade, mas também emocional”, alerta.

Para Leiko, a língua de origem deve ser mantida no dia a dia com a família. “Quando o pai ou a mãe fala a primeira língua da criança é importante que continue dando o suporte linguístico em casa, já que a segunda língua o filho vai aprender na escola”.

Saudade

Sylvia alerta para o risco tanto da escola quanto dos pais de “patologizar” algum comportamento da criança, ou seja, tratá-lo como distúrbio, transtorno ou doença, quando na verdade isso só demonstra que a criança está lidando com uma situação complexa e precisa de tempo para absorver as mudanças.

“Certa vez, durante um trabalho com famílias imigrantes, pude observar que uma criança estava sendo medicada por déficit de atenção de forma equivocada. A família tinha acabado de voltar de férias do Brasil onde foi passar o verão. A criança tinha se encontrado com tios, primos, todo mundo reunido. Ao voltarem para os Estados Unidos, em pleno inverno, o comportamento da criança foi visto como hiperativo, mas era uma simples expressão de saudades dos parentes que ficaram pra trás e daquele ambiente familiar caloroso. Faltou essa compreensão”, ressalta a Sylvia, lembrando que situações como essa são comuns.

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