15 de set de 2011

Segundo idioma: por que adiar e sofrer se é melhor antecipar e curtir?

Aprender um segundo idioma é possível em qualquer idade, mas os mais crescidos devem concordar que, à medida que se fica mais velho, essa aptidão tende a diminuir. Não é preciso ser especialista para perceber que, de uma forma geral, quanto mais tempo uma pessoa estiver ligada somente à sua língua materna, mais dificuldade terá quando se deparar com uma língua diferente.

Flávia Camargo, pesquisadora da área de Linguística Aplicada e professora de língua inglesa há sete anos, concorda que o desafio é maior ao aprender outra língua quando se é adulto. Ela observa que existe certa dependência desses alunos em fazer a tradução, ou seja, primeiro pensar na língua de origem para depois transferir para a segunda língua. “Não há como fingir que o aluno está começando do zero e que ele já não possui uma língua na qual formula seus pensamentos. A tradução tem sua utilidade principalmente no início da aprendizagem, só não pode virar uma 'muleta' necessária para formular qualquer frase”, ressalta.

Já as crianças não sofrem do “mal” da tradução. Segunda Flávia, com elas não existe o fingir que se está começando do zero porque é realmente um início. “Como a criança não tem uma base linguística completamente estruturada na língua materna, não vai depender dessa língua para formular seus pensamentos em outra”, explica a professora.

Pronúncia

No caso da língua inglesa, a pronúncia é outro item que faz sofrer muitos adultos, segundo Flávia. “Inglês não é uma língua silábica como a nossa. No português, b + a é sempre ‘ba’, mas em inglês, não. Um exemplo é ‘drink’ e ‘drive’ que têm sílabas formadas pelas mesmas letras (dri) e com pronúncia diferente: 'drink' e 'draiv'”, diz.

Alunos adultos escorregam ainda na pronúncia dos verbos no passado. Palavras como 'kissed' tendem a ser pronunciadas como se fossem lidas em português, e aí vem a correção da professora: “Palavras terminadas com sons ‘desvozeados’, ou seja, terminadas em p, k, s, ch, sh, x, por exemplo, têm a pronúncia finalizada em ‘t’. Por isso, ‘kissed’ seria 'kist' e não 'kissed' como a maioria dos alunos costuma falar”, ensina.

Mais uma vez, Flávia lembra que isso não acontece com as crianças: “elas são como esponjas, absorvem tudo e não ficam comparando línguas”.

Imersão na infância

Para evitar situações como as citadas acima, muitos pesquisadores recomendam que bebês e crianças sejam expostos o quanto antes à língua que se pretende que eles aprendam. Porém, não adianta se essa exposição for esporádica e somente com “pinceladas” do novo idioma.

Maria Fausta Pereira de Castro, professora titular na área de aquisição de linguagem no Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/UNICAMP), acredita que aprender algumas palavras ou músicas até promove certo contato com a língua, mas não faz, necessariamente, alguém se tornar um falante daquela língua estrangeira. “É possível conhecer músicas em diversas línguas estrangeiras e não ser falante de nenhuma delas”, exemplifica.

Ana Paula Mariutti, presidente da Organização das Escolas Bilíngues de São Paulo (OEBI), explica que a exposição ao segundo idioma deve ser diária e natural, assim como acontece com a língua materna na casa da criança. “Quem já fez cursinho de inglês sabe que na sala de aula são comuns as simulações com situações do dia a dia. O professor pode fingir que é o garçom e os alunos são os clientes, por exemplo, mas será que o estudante, quando estiver num restaurante de verdade, vai saber responder se algo fugir ao script? É diferente na escola bilíngue onde o aluno vive, desde muito cedo, a imersão no segundo idioma, ou seja, o que ele vivencia na língua estrangeira já é a própria vida real”, aponta.

E você, aprendeu a segunda língua quando era criança e se tornou fluente com facilidade ou ainda se vê às voltas com professores de idiomas?

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