13 de out de 2011

O cérebro tem espaço para guardar diferentes línguas

É normal que crianças bilíngues, ao aprender duas línguas praticamente ao mesmo tempo, de vez em quando troquem palavras ou frases do outro idioma para se comunicar. Por conta disso, existe a preocupação de que essa característica reflita a sensação da criança de estar perdendo a primeira língua. Mas, felizmente, essa é uma preocupação de gente grande, porque, no cérebro da criança, esse processo acontece de maneira muito simples.

“Quando a criança, no meio de frases em português, solta uma palavra em inglês, por exemplo, não é uma confusão, mas um fenômeno típico de pessoas que fazem uso regular de duas línguas e acabam tendo a facilidade de navegar pelos dois idiomas. É o que chamamos de Code Switching”, explica Andressa Lutiano, pedagoga pós-graduada em didáticas do ensino bilíngue.

Ela garante que a criança não vê o aprendizado do segundo idioma como uma dificuldade, mas sim apenas um jeito a mais de se comunicar. “A criança, principalmente se começa cedo a aprender outra língua, não sente que está estudando. Nesse contexto, as coisas acontecem em inglês e o conhecimento vai sendo adquirindo de uma forma muito tranquila. Além disso, o aprendizado da segunda língua não exclui a primeira”, afirma.

Pela neuroliguística também não há a sensação de perda do primeiro idioma. O instrutor da Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística (SBPNL), Alexandre Bortoletto, conta que o armazenamento dos idiomas acontece em um mesmo local no cérebro, responsável pela linguagem, e que lá não há limites de aprendizagem de diferentes línguas, principalmente em se tratando de crianças.

“Até os sete anos de idade, o cérebro é uma esponja que absorve quase tudo do meio em que vive. O mesmo acontece em relação a línguas. Temos uma parte frontal no cérebro que está ligada ao aprendizado por meio das emoções. As partes laterais são responsáveis pelo aprendizado auditivo e na nuca, parte de trás do cérebro, fica o aprendizado pela imagem. Usamos o cérebro inteiro para aprender tanto o primeiro quanto o segundo idioma e todos eles cabem lá”, afirma.

Segundo Andressa, a criança que aprende duas línguas não vai perder uma delas, vai apenas associar que existem duas línguas diferentes, uma que se fala em casa e outra que se fala na escola, no caso de crianças que estudam em escolas bilíngues. “Ela vai visitar seus parentes e vai perceber que sua avó, por exemplo, não entende quando ela fala o idioma que aprende na escola. Então ela vai ter na cabeça dela que com a avó deve falar português e não inglês. É um processo muito simples”, conta.

A sensação de perda da primeira língua até pode ser sentida, mas, na maioria dos casos, esse processo acontece com imigrantes. “Quando se muda de país, muda-se também o contexto em que a criança vive, inclusive o idioma. Já a criança brasileira, que tem família brasileira e que passa por uma imersão em inglês na escola bilíngue, não tem a sensação de perder a primeira língua, porque continua com o português em casa e em situações do cotidiano, como assistir à televisão”, explica Andressa.

Aprender uma língua nova não significa negar a antiga. Andressa afirma que a criança passa a adquirir uma nova habilidade de acordo com valores ou crenças ofertados a ela. Se ela estuda em uma escola bilíngue, por exemplo, o ambiente provavelmente proporcionará valores e cultura referentes ao segundo idioma. “Essa apreciação facilita o aprendizado da criança, mas ela não vai deixar de ter valores nacionais em casa. Então, quando a cultura do dia a dia da criança também é bi, a estima pelo bilinguismo aumenta e é facilitada”, explica.

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