7 de nov de 2011

Semântica não é coisa de criança

Idiomas são muito ricos. A língua inglesa, por exemplo, tem influência germânica, enquanto o português é da família do latim. Elas apresentam traços lexicais, semânticos e sintaxe diferentes. Mas, no ensino bilíngue, isso não é um grande problema.

Até os sete anos de idade, conta a neurolinguista Eloísa Lima, o cérebro é uma janela aberta à aquisição da linguagem e os idiomas entram todos em um único pacote. Tendo estímulos das duas línguas em igualdade de condições, o ensino bilíngue certamente será eficiente. Mas quando o assunto é a semântica, a história é outra.

As palavras e seus significados
“Nem que a vaca tussa” é uma expressão muito utilizada no Brasil. Mas “not even if the cow coughs” (traduzida literalmente) não faz o menor sentido para nativos de países de língua inglesa. O idioma tem outra expressão – “when pigs fly” – que tem o mesmo sentido figurado, mas que, em português (“quando os porcos voarem”), não quer dizer absolutamente nada.

É complicado. Mas é assim que funciona. “Semântica é o significado das palavras em termos estruturais, é uma relação de interpretação do vocábulo”, explica Eloísa.

A professora de Letras Celina Martins vai além. “Usamos, no nosso cotidiano, expressões que, de maneira literal, têm outro significado. Quando falamos que alguém tem ‘coração de pedra’, não significa que a pessoa apresenta, de fato, uma pedra no lugar de seu órgão vital, queremos dizer que ela não tem sentimentos. É aí que entra a semântica”, exemplifica.

Celina explica que o sentido literal se confunde com o sentido figurado, fazendo com que o entendimento da frase passe a ser muito complexo. “Deixa de ser uma questão de linguagem e passa a ser cultural”, afirma Celina. E é por isso que, ao falar dois idiomas, a tradução literal de palavras e expressões não funciona.

Bilíngues e a semântica
Mesmo no caso de pessoas bilíngues, que têm total conhecimento das línguas, brincar com a semântica é complicado. “Só se a pessoa estiver vivendo naquela linguagem conseguirá dominar as expressões, gírias e seus significados. É preciso estar imerso em um contexto da vida da linguagem do nativo para ficar atualizado. Isso porque a semântica muda de país para
país e de tempos em tempos”, diz Eloísa.

A neurolinguista conta que existem várias semânticas dentro da linguagem, como sinônimos, antônimos, paronímia e a relação entre significante e significado. “Quando falamos ‘mesa’, pensamos em um objeto de quatro pés, em que apoiamos coisas em cima e não em um lugar para sentarmos. Usamos a palavra nos portando ao seu significante. Quando ouvimos a palavra ‘peixe’, por exemplo, pensamos em um animal, que vive na água, no mar e, até em outras espécies, percorremos vários caminhos no cérebro para entender e achar o seu significado”, diz.

Assim, quanto mais conhecimento acumulamos, mais rápido nosso raciocínio se torna, ajudando na hora do diálogo, inclusive em outras línguas. Por isso, com os pequenos, a semântica funciona de maneira diferente. Eloísa conta que a criança ainda não sabe distinguir a conotação, por isso ela imita o som sem necessariamente saber o que ele significa. “É um fenômeno espontâneo. Existem muitos casos de crianças que dizem aos seus pais que os odeiam quando ficam bravas. ‘Odiar’ é uma palavra muito forte, mas, para ela não tem o mesmo peso, porque o linguajar foi captado de seu entorno. É normal ela utilizar uma palavra fora do contexto pelo simples fato de não entender seu significado. Então a semântica, na criança, fica leviana”, explica.

Para ter o trânsito livre na linguagem é preciso muito domínio, que as crianças ainda não têm. Semântica é coisa de adulto. Celina afirma que o aprendizado da associação dessas características da linguagem acontece em outra faixa etária. A criança não precisa saber o conceito e um professor pode ser muito bom sem precisar passar esse conhecimento. “O mais importante é entender o interesse do aluno e basear o ensino em atividades para que ele
possa aprender o idioma, sentir-se confortável com ele e depois, mais tarde, poder fazer uso de ferramentas mais complexas e brincar com a linguagem”, afirma Celina.

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